Ainda tento perceber, digo “ainda” porque “ainda” não
desapareceu. Covardia, atitude? Provavelmente desisti de mim antes de saber que
estava a tentar, ou talvez me tenha forçado a continuar onde já não existia
caminho, acho que queria tanto um começo do meio que não vi que do meio é impossível
começar. Mesmo que isso fosse tão mais fácil! Não devo estar a agarrar o tempo
de forma correta, aliás, nem estou a tentar segurá-lo. Ele continua, e eu espero
ser diferente dos outros, sempre à espera que ele aguarde por mim, e então torna-se
cada vez mais difícil acompanhá-lo, porque no fundo já o larguei, como quem
larga lixo no meio da rua e tenta passar despercebido.
Coragem não é agir sem medos, coragem é ter medo e agir.
Quem já não ouviu? E então eu vejo que passei a maior parte do tempo a
pintar-me com as cores erradas, de que vale querer fazer arte se toda a vida
não passas de um esboço por dentro? Tanta coisa que deixei por aprender, por
julgar que já vinha ensinada. Mas estamos tão enganados em relação a tudo.
Uma constante na vida: “Estamos sempre a aprender”. A certeza
de que sabemos mesmo, é o que põe em causa não sabermos nada. Quando julgamos que sabemos o
máximo que poderíamos, então habilitamo-nos a aprender o mínimo do que é. E com
tantos erros, tantas certezas, tanta razão de que nos fazemos donos, acabamos
por perder (sempre!) parte do que poderíamos ser. Podemo-nos corrigir, podemos
não praticar os mesmos erros, mas esquecê-los não, e é essa parte que nos vai
acompanhar para todo o lado, o medo de falhar, porque já falhámos e sabemo-lo.

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