segunda-feira, 18 de maio de 2015

Inocência

    Que merda de vida. 
   E quantas vezes, por vezes, nos apetece repetir essa frase. Que merda de vida. Estou cansada de desilusões. Por favor, se for para entrares na minha vida e fores igual a todos, então não te dês ao trabalho. As pessoas são egoístas, são egocêntricas, gostam de apimentar a vida com problemas, parece que lhes dá gozo viver assim. Orgulho, dá cabo de toda a gente. Que raio de pessoas somos nós, cheios de valores até à altura em que os esquecemos para errar, cheios de "nunca o faria" que acabam por fazer.
  O mundo não está perdido, mas está perto. E eu a cada dia que passa mais deixo de me querer preocupar com as pessoas, de dar tudo de mim a qualquer pessoa e sair lixada. As pessoas estão sufocadas de falsidade, vazias de ética, moral, a essência das pessoas está gasta, o que nos distingue de um ser irracional? Tudo. Acabam eles por ser mais racionais que nós. Eles mantêm a essência desde que nascem até que morrem. E nós desde que nascemos que nos tornamos mais desumanos.
   Quase que dá pena ver uma criança crescer neste meio, a inocência é tão pura, é como uma corrente de ar, é como respirar fundo, é o melhor que temos quanto pessoas, e o melhor que perdemos quanto adultos.

sábado, 9 de maio de 2015

Constante

  Ainda tento perceber, digo “ainda” porque “ainda” não desapareceu. Covardia, atitude? Provavelmente desisti de mim antes de saber que estava a tentar, ou talvez me tenha forçado a continuar onde já não existia caminho, acho que queria tanto um começo do meio que não vi que do meio é impossível começar. Mesmo que isso fosse tão mais fácil! Não devo estar a agarrar o tempo de forma correta, aliás, nem estou a tentar segurá-lo. Ele continua, e eu espero ser diferente dos outros, sempre à espera que ele aguarde por mim, e então torna-se cada vez mais difícil acompanhá-lo, porque no fundo já o larguei, como quem larga lixo no meio da rua e tenta passar despercebido.
    Coragem não é agir sem medos, coragem é ter medo e agir. Quem já não ouviu? E então eu vejo que passei a maior parte do tempo a pintar-me com as cores erradas, de que vale querer fazer arte se toda a vida não passas de um esboço por dentro? Tanta coisa que deixei por aprender, por julgar que já vinha ensinada. Mas estamos tão enganados em relação a tudo.

    Uma constante na vida: “Estamos sempre a aprender”. A certeza de que sabemos mesmo, é o que põe em causa não sabermos nada. Quando julgamos que sabemos o máximo que poderíamos, então habilitamo-nos a aprender o mínimo do que é. E com tantos erros, tantas certezas, tanta razão de que nos fazemos donos, acabamos por perder (sempre!) parte do que poderíamos ser. Podemo-nos corrigir, podemos não praticar os mesmos erros, mas esquecê-los não, e é essa parte que nos vai acompanhar para todo o lado, o medo de falhar, porque já falhámos e sabemo-lo

sexta-feira, 24 de abril de 2015

Um Ser rotineiro

Hoje em dia é diferente, olho para os carros passar e quase que vejo, o que agora é alcatrão, o caminho de estrada batida que antes existia. Ou, secalhar, uma horta, batatas, cebolas, machados..
Agora, vou na estrada e vejo os carros a passarem por mim, por uns segundos entro na vida de quem lá vai dentro, cada carro que passa leva uma vida de batalhas que carregam todos os dias. No final toda a gente é igual, toda a gente leva uma vida que podia ser a nossa. A diferença traça-se nas decisões. A vontade de gostarmos de nós próprios, de nos erguermos, de conquistar.
Afinal a nossa vida é apenas isso, criar algo, ser diferente dos outros. Mas, apenas nos tornamos iguais a todos quando fazemos o mesmo que todos para mantermo-nos no mesmo lugar, não elevamos as nossas ambições, não acreditamos que conseguimos mais, apenas aceitamos o que a rotina nos vai trazendo e, quando trazemos crianças ao mundo ensinamos-lhes o mesmo que temos vindo a fazer, esperar a sorte.
Tudo o que podiamos trazer de bom, normalmente, o "novo" já vem traduzido em máquinas.
Ensinamos as crianças a nascerem já acostumadas, já cansadas, já limitadas à imaginacão, mecanizadas de pontos de vista.
Onde vamos assim?
Nascemos para trabalhar, receber e morrer.
Este é o lema de vida que, o único ser com capacidade de pensar por si próprio segue.
Finalmente, depois de tantas gerações de animais, a evolução trouxe-nos a nós, ser humano com poder de decisão, poder de escolha entre o certo e o errado. Mas somos todos tão inteligentes que acabamos todos por ser rotina das nossas escolhas.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Vocês fortes, Nós fracos.

Já chega. Talvez me tenha perdido por aí, talvez me tenha guardado de mim. Nunca mais me vi, a minha vontade fica coberta na cama de onde não me levanto, e a minha persistência obriga-me a dormir tudo o que consigo. "Dorme por favor!" é o que repito para mim quando esgota o sono, boa solução que os fracos arranjam para não viver mais. Talvez façamos falta a algumas pessoas quando formos, mas talvez fiquem mais livres sem o nosso peso a pregar-lhes ao chão. Eles dizem "Levanta-te!", "Faz!", "Consegue!", e nós só pensamos "Deixa-me", "Deixa-me ir", "Deixa-me estar". Mas eles sabem, por mais que nos amem, que estavam melhor sem nós, eles tentam, e há que tentar por eles. Gostava de me encontrar, talvez tenha ficado não muito longe daqui, à espera que lá voltasse a passar. Ou nâo, tanto faz. Até lá, nós os fracos, continuamos a ocupar espaço nas vossas vidas, a magoar-vos com as nossas feridas, a desiludir-vos todos os dias, só porque perdemos a força de sermos fortes, tentamos pintar a covardia. Todos os dias é um novo, e igual, "Para quê?".

Fotografia

   Queria segurar o ar, queria fotografar o vento. Queria guardar uma imagem que me soprasse os cabelos quando a visse. Haveria de haver uma forma de capturar mais que luzes, poderiamos sentir o suor na pele de um dia de sol, a neve que aparece no canto da foto poderia congelar os dedos de lhe tocar. Deveria haver forma de guardar a chuva a escorrer-me a cara, a fechar-me os olhos. E o cheiro a terra que fica. Queria tanto que uma fotografia guarda-se o som das ondas na areia à chegada e o arrepio de prazer desses breves segundos que conseguimos ver o mundo sem maldade. E sentimentos.. Nada queria mais que revive-los, que guarda-los num tipo de camera especial. Revive-los de todas as vezes que me fizessem falta, que me deixassem saudade. Se assim fosse, sera que me faria mais feliz? Guardar-te em uma fotografia, po-la debaixo da almofada e sentir o teu perfume antes de adormecer. Acordar com a tua respiracao a sussurrar-me ao ouvido, enquanto os teus dedos tocam os meus. Mesmo nao dando para falar por uma imagem, mesmo nao dando para acrescentar algo que ficou por dizer, mesmo tudo, acho que sabes o que te tenho por dizer desde que te conheco.    Acho que isso seria a única coisa que nunca caberia em uma fotografia, nunca caberia em uma vida, mesmo que a teu lado. Há coisas que só as pessoas podem guardar, e mesmo assim não saber o que guardam. Carregam o universo dentro delas e não existe forma de o mostrar a ninguém. Amar alguém faz-te parecer maior que o teu tamanho, tudo o que te faz forma, cada centímetro do teu corpo, ultrapassa-te, foge-te pelos poros, deixa de ser só tu, passa a correr o mundo, cria formas novas, alturas maiores que as mais altas, tornas-te capaz de tanta coisa por amor, tornas-te capaz de ti. Tornas-te capaz de ti. De tudo o que é novo, quebras rotinas, sonhas alem de ti, voas alem de todos. Ou amas a aprender a largar, a saber ver que amar alguém é deixar alguém amar para alem de ti.          Como pode isso caber em uma fotografia, é melhor deixar a fotografia ser só uma imagem, e tudo ser só uma recordação, boa.